Coronavírus: o culpado é o morcego?

ENTENDA A RELAÇÃO ENTRE MORCEGOS E CORONAVÍRUS

Foi comprovado que o morcego é reservatório natural de duas variações conhecidas  do coronavírus.

O coronavirus que provocou epidemia mundial de SARS (Síndrome Respiratória Aguda Grave) entre 2002 e 2003 tendo os primeiros casos na China com 8.000 infectados em vários países e 800 mortes, ou aquela que matou 858 pessoas  tendo origem na Arábia Saudita em 2012 e que causou a chamada Síndrome Respiratória do Oriente Médio (MERS).

Embora os morcegos sejam reservatório natural de ambos os vírus SARS-CoV e MERS-CoV não foram transmitidos à espécie humana diretamente por eles, houve transmissão por meio de outro hospedeiro chamado de intermediário, no caso da SARS foi o gato selvagem (civet cat) e no da MERS foi o camelo.

E agora o novo coronavírus (2019-nCoV?) Existe grande probabilidade de que ele circule entre os morcegos, pois há uma semelhança genética de 88% com duas cepas de coronavírus SARS de morcegos, porém, isto está distante de afirmar que são ancestrais do novo coronavírus e que haja a transmissão direta de morcegos ao homem.

Circula nas redes sociais uma fake news de que sopa de morcego tenha disseminado o novo coronavírus 2019 entre os chineses, não há qualquer embasamento científico para tal.

A origem da epidemia na China foi identificada como sendo o mercado de animais vivos de Wuhan, com 08 primeiros casos tendo contato direto com o local.

A conclusão dos pesquisadores é de que o morcego novamente seja o reservatório natural e haja algum outro animal selvagem como hospedeiro intermediário. Ainda não se sabe qual.

Os chineses possuem culturalmente o hábito de comercializar várias espécies de animais silvestres para consumo alimentar, portanto, desde mamíferos aquáticos, répteis até mamíferos terrestres são suspeitos na transmissão do novo coronavírus.

MAS POR QUE NÃO SE SUSPEITA DA TRANSMISSÃO DIRETA DOS MORCEGOS PARA HUMANOS?

Segundo o Guizhen Wu, do Centro Chinês para Controle e Prevenção de Doenças, os morcegos nesta época do ano nesta região estão hibernando e nenhum foi vendido ou encontrado no mercado de Wuhan.

QUAL A IMPORTÂNCIA DA PRESERVAÇÃO AMBIENTAL PARA A SAÚDE HUMANA?

A origem dos coronavírus está nos morcegos: então, devemos eliminá-los?

O ser humano não percebe que ultrapassou dos limites na invasão do meio ambiente natural. Não percebe a dimensão da destruição que já causou e continua causando no planeta e mais, nem tem noção dos impactos que gera para si próprio e para todos os seres que aqui habitam.

Trazer para perto patógenos que não chegariam ou não provocariam doença na espécie humana é uma das consequências do desmatamento, da invasão a ambientes selvagens ou captura de animais silvestres para estimação ou alimentação. Eliminar morcegos é ignorância sem precedentes, pois o papel ecológico que estes seres exercem é extremamente importante e  por muitos desconhecido.

Polinização, fertilização, dispersão de sementes, controle de populações de insetos e pequenos animais são alguns dos benefícios que os morcegos automaticamente trazem ao saírem para se alimentar.

A grande maioria (1.300 espécies) são espécies insetívoras e frugívoras (comem insetos e frutas), somente três são hematófagas e não causam tantos prejuízos quanto os pecuaristas relatam.

Além disto, mais de dois terços dos vírus humanos têm origem nos animais, não só morcegos. Portanto, as novas viroses não deixariam de existir mesmo se eliminássemos todos os morcegos da face da Terra. Sempre haveria outros reservatórios naturais.

O foco para reduzir a chegada de novos vírus até a espécie humana deve ser outro: o da preservação dos ambientes naturais e das espécies que neles vivem, evitando interações forçadas como fazem os chineses ao caçarem ativamente mais de 100 espécies silvestres para alimentação e concentrando-os em um mercado de animais vivos e mortos. Isto é que não é natural.

Esther M. Benedicto

Médica veterinária

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